terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Resenha: Contos de terror

Contos de terror, Camilo Prado, org. 166 páginas Ilustrações internas e capa de Angelo Agostini. Edições Nephelibata, Desterro, 2016.

O gênero do horror sempre teve uma convivência mais íntima com o mainstream literário brasileiro, e não é difícil para o leitor atento identificar obras sombrias na bibliografia de uma infinidade de autores consagrados. Isso acontece devido a uma fase importante da arte literária, que acorreu entre o final do século 19 e o início do século 20, que os pesquisadores chamam de Decadentismo. Esse movimento artístico, herdeiro tardio do gótico, que em tudo reflete aos protocolos do horror como o conhecemos hoje, foi bastante popular na Europa – especialmente na França – e, por conseguinte, sua influência atingiu o Brasil em cheio, daí a razoável prodigalidade com que esse tipo de texto foi praticado, em comparação a outros gêneros da literatura especulativa.
Contos de terror, antologia organizada pelo pesquisador Camilo Prado para a editora independente Nephelibata, buscou reunir uma amostra da escola decadentista brasileira, para o que o organizador estabeleceu uma regra de ouro: só publicar contos em que os elementos tétricos fossem decorrentes de uma ação natural. Ou seja, nada de assombrações, demônios e outras manifestações do sobrenatural. Trata-se, portanto, de uma antologia de terror no sentido estrito, em que são apresentadas as faces mais sombrias do ser humano a partir da arte de autores renomados, quase todos em domínio público, numa tiragem muito pequena: apenas 70 exemplares numerados produzidos artesanalmente pelo editor. Este volume é uma espécie de lado B de uma publicação anterior, a antologia Contos decadentes brasileiros, já esgotado, mas que a editora pretende dar sequência com dois novos volumes que estão no prelo.
Outro aspecto interessante adotado pelos editores foi a manutenção da grafia da época, ou seja, os textos são apresentados da mesma maneira em que foram vistos originalmente, com as regras ortográficas da virada do século 19, o que dá um sabor especial à leitura, assim como as ilustrações do jornalista ítalobrasileiro Angelo Agostini, um dos primeiros ilustradores editoriais do país.
São quinze os textos presentes neste volume, de autoria de quatorze autores: Coelho Netto, Lucilo Varejão, Viriato Corrêa, Domicio da Gama, João do Rio, Julia Lopes, Humberto de Campos, Théo-Filho, Rodrigo Octavio, Monteiro Lobato, Carlos de Vasconcelos, Baptista Junior, Gastão Cruls e Medeiros e Albuquerque.  Alguns nomes são identificados com a literatura especulativa – como Humberto de Campos, João do Rio, Coelho Netto, Gastão Cruls e Monteiro Lobato –, mas a maior parte dos nomes é mesmo uma grata novidade. O organizador cuidou para que cada um deles fosse devidamente apresentado ao leitor numa breve biografia que antecede cada um dos contos, e ajuda bastante a contextualização do que será lido.
O conto que abre a seleta é "Na treva", de Coelho Netto, autor extremamente popular em sua época, dono de um estilo rebuscado com pendão para o inusitado, que conta a história vertiginosa de um grupo de passageiros a bordo de um trem noturno aparentemente desembestado.
Outro texto de destaque é "A peste", de João do Rio, que desenvolveu em seus contos um importante trabalho de registro da cultura carioca de sua época. Neste, o drama hospitalar sobre um surto de varíola.
"Madrugada negra", de Viriato Corrêa, não é de todo desconhecido. Trata-se de um relato em primeira pessoa, em que um homem conta a um grupo de amigos uma história de grande infortúnio. Contar uma história dentro de outra é um formato recorrente neste tipo de narrativa, e o autor de Cazuza, membro da Academia Brasileira de Letras, desfia aqui uma tragédia advinda da covardia de um homem.
Julia Lopes é a única mulher no grupo, e também única a comparecer com dois textos.  Sob as estrellas" envereda pela trágica relação de amor de um casal separado pela insensibilidade do homem, e "As rosas" é a história triste e tétrica de um jardineiro que perdeu a filha.
Outra história bastante antologizável é "O juramento", de Humberto de Campos, sobre um homem que testemunhou a amada ser devorada por índios canibais.
Gastão Cruls, autor do importante romance A Amazônia misteriosa, aparece aqui com "G.C.P.A.", também uma narrativa hospitalar sobre um homem que padece de uma doença rara.
"Bugio moqueado" é o texto de Monteiro Lobato, um dos maiores clássicos do terror brasileiro, originalmente publicado na coletânea Negrinha (1920), com o relato sobre a técnica educativa de um homem muito mau.
Também vale comentar aqui o texto de Ridrigo Octavio, "Gongo Velho (Cousas de outro tempo)", uma história pungente de exploração e preconceito que, ainda que tenha sido publicada em 1932, tem forte apelo em nossos dias.
A antologia é muito equilibrada e demonstra o quanto o Decadentismo foi prolífico no Brasil. Sabemos que muitos desses autores não se negavam a avançar nos domínios do sobrenatural quando lhes convinha, como se pode perceber na leitura de antologias como Páginas de sombra (Casa da Palavra, 2003) e Contos macabros (Escrita Fina, 2010). Mesmo sem o componente metafísico, Contos de terror junta-se a elas para contribuir com o estudo da presença da ficção de horror na literatura brasileira. Sem esquecer que também é, por si mesma, uma leitura perturbadora e, porque não, divertida.

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