quarta-feira, 29 de junho de 2011

A fantástica literatura queer

Dentre muitos projetos anunciados pelas editoras que se dedicam a trabalhar com a FC&F no Brasil, não há nenhuma dúvida que o mais corajoso e polêmico é a antologia A fantástica literatura queer, organizada por Cristina Lasaitis e Rober Pinheiro para a Tarja Editorial, lançada no último dia 24 de junho, em São Paulo, aproveitando as atividades ligadas ao Dia do Orgulho Gay.
A coragem da Tarja e dos organizadores em se meter nesse vespeiro se potencializa quando eles se envolvem com a questão homossexual dentro do perímetro da ficção fantástica, especialmente da ficção científica, herdeira do pensamento conservador e assexualdo da Golden Age, ainda muito dominante no gênero.
Há pouquíssima FC&F que coloca em pauta, mesmo que transversalmente, a questão homossexual. Raramente aparecem personagens gays e, quando existem, eles são indecisos e inseguros, refletindo a dificuldade dos autores do gênero em abordar a questão.
Num exercício rápido de memória, na FC brasileira apenas um trabalho me vem a mente: o conto "Quando murgau A.M.A. murgau", de Ivan Carlos Regina, publicado na antologia O fruto maduro da civilização (1995, GRD), um autêntico trabalho de discussão do homossexualismo de uma forma que só mesmo a ficção científica poderia propor.
Na FC estrangeira há mais opções. Lembro-me das utopias homossexuais O planeta Esparta, de Bertram Chandler, e seu inverso, As exterminadoras, de Edmund Cooper. Outros livros que margeiam o assunto são A mão direita da escuridão, de Ursula Le Guin, Não temerei o mal, Robert Heinlein, e Gateway, de Fredrick Pohl, que apresenta um personagem homossexual bastante redondo.
Há mais. Contudo, o tema parece restrito a um nicho específico do mercado, um fandom dentro do fandom, que sustenta editoras, revistas e prêmios literários, como o Lambda Award, que tem categoria específica para FC&F&H. Trabalhos de Anne Rice, Samuel Dalaney e Octavia Buttler já foram indicados a esse prêmio, e Clive Barker o ganhou duas vezes, com trabalhos já traduzidos no Brasil (Sacrament, Galilee).
Apresentada em dois volumes de 178 páginas cada, A fantástica literatura queer traz textos inéditos de quinze autores brasileiros: Alliah, Camila Fernandes, Cesar Sinicio Marques, Claudio Parreira, Cristina Lasaitis, Cindy Dalfovo, Daniel Machado, Eric Novello, Kyran, Laura Valença Guerra, Monica Malheiros, Osíris Reis, Renato A. Azevedo, Rober Pinheiro e Rogério Paulo Vieira, todos autores ligados ao que se convencionou chamar de Terceira Onda da FC Brasileira, ou seja, surgidos principalmente na internet. Nota-se aqui um certo distanciamento dos autores das Primeira e Segunda Ondas, talvez fortuito, mas muito revelador. É claro que havia a possibilidade dos organizadores selecionarem material não inédito, mas deve ter sido uma opção consciente não fazê-lo.
O único detalhe que não me agradou foi a proposta militante com que a antologia é apresentada. Aparentemente, os mais de três milhões de participantes da Parada Gay não são suficientes para convencer que os homossexuais não são uma minoria social e que a questão pode ser colocada com maior naturalidade, sem manifestos e frases de efeito.
De qualquer forma, A fantástica literatura queer é uma obra a ser observada.

sábado, 25 de junho de 2011

Juvenatrix 128

Está disponível a nova edição do fanzine de terror e FC Juvenatrix, editado por Renato Rosatti, que já completou 20 anos de publicação ininterupta.
Juvenatrix é sobrevivente de uma era passada, na qual os fanzines eram publicados em papel e distribuídos pelo correio. A maior parte dos fanzines desse tempo remoto não resistiu ao avanço da internet, mas o de Rosatti subsiste porque se virtualizou, tornando-se uma publicação adequada aos novos tempos. Contudo, o conteúdo não se alterou e segue focado no terror e na ficção científica, apresentando artigos sobre filmes de cinema e séries de TV clássicos e recentes, literatura, rock e quadrinhos, além de contos de autores novos.
Esta edição, de 35 páginas, traz artigo de André Okuma, resenha detalhada do seriado Quinta Dimensão (The Outher Limits, 1963/1965), contos de Emanuel R. Marques e Rita Maria Felix da Silva, o obituário da atriz Yvette Vickers, uma longa HQ de A. C. Peres, e até a reprodução da uma resenha deste blogue sobre a antologia O incrível homem que encolheu, de Richard Matheson. A capa traz uma lustração de Emanuel R. Marques.
Para solicitar uma cópia em formato PDF, basta enviar um e-mail para renatorosatti@yahoo.com.br.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Gene Colan (1926-2011)


No dia 23 de junho, aos 84 anos, o grande Gene Colan completou sua carreira.
Colan é conhecido por ter sido, nos anos 1960, um dos ilustradores das primeiras revistas da Marvel Comics, ao lado de Jack Kirby e Steve Ditko. Entre eles, Colan era quem tinha o estilo mais realista, com traços perfeitos que davam um movimento fluido, expressivo e muito elegante aos personagens, ajudando a construir o estilo gráfico da editora que influenciaria ilustradores no mundo inteiro.
Gene Colan nasceu em Nova York em 1926, e desde muito jovem demonstrou talento para o desenho. Serviu nas Filipinas durante a Segunda Guerra, onde publicou seus primeiros trabalhos. Voltou para os EUA em 1946 e trabalhou para as editoras Timely, National e Atlas, ilustrando principalmente histórias de guerra, sem ser creditado. Nos anos 1960, transferiu-se para a recém fundada Marvel Comics e encarregou-se das histórias do Iron Man, na melhor fase do personagem. Também ilustrou as revistas Sub-Mariner, Doctor Strange, Daredevil, Captain Marvel e Captain America, para o qual criou Falcon, um dos primeiros heróis negros da editora, refletindo o movimento popular pelos direitos civis dos negros americanos. Mais tarde, outro personagem afro-americano de sua lavra se tornaria destaque da Marvel: Blade, um caçador de vampiros que era coadjuvante na revista The Tomb of Dracula. Colan também ajudou a criar um dos mais politicamente incorretos heróis da Marvel, Howard the Duck.
Nos anos 1980, na DC, Colan ilustrou Batman e Wonder Woman, e adaptou para os quadrinhos o premiado romance Nightwings, de Robert Silverberg, na coleção DC Science Fiction Graphic Novel. Tanto o romance quanto a adaptação de Colan são inéditos no Brasil.
A esta altura, Colan já era considerado um mestre, mas somente em 2005 sua importância foi reconhecida pela indústria de quadrinhos americana, que lhe conferiu o Will Eisner Comic Book Hall of Fame.
Colan manteve-se ativo até 2009, quando foi obrigado a interromper o trabalho por conta da saúde debilitada.
Gene Colan foi premiado com um Shazam Award em 1974, dois Eagle Award em 1977 e 1979), e um Eisner Award em 2010.

É campeão!


Homenagem a este belíssimo elenco, que disputou com talento uma das competições mais difíceis do mundo.
Valeu Peixe!

QI 109

Esta semana, recebi mais uma edição do fanzine Quadrinhos Independentes, editado por Edgard Guimarães, referente a maio/junho de 2011. Trata-se de um dos últimos fanzines dos anos 1990 ainda em publicação em papel. Não que haja muitos outros fanzines dessa época em publicação, mas pelo menos um, o Juvenatrix de Renato Rosatti, também se sustenta, contudo em edição virtual há uns três anos.
O caso é que a era dos fanzines parece ter mesmo se encerrado. Quase não são mais publicados e até o catálogo de edições independentes, que era o foco principal do QI em seus primeiros 15 anos de publicação, não tem mais relevância: nesta edição, acupa apenas duas das 20 páginas do fanzine.
O QI parece sofrer do mesmo mal que tem acometido algumas das principais referências dos quadrinhos do Brasil, como o site Bigorna, que anunciou há poucas semanas o encerramento de suas atividades, e o Prêmio Angelo Agostini, que pode ser descontinuado com a aposentadoria de seu principal articulador, Worney Almeida de Souza, não por acaso, também um dos articulistas do QI.
Pouco a pouco, as minhas mais nefastas previsões, feitas ainda no século XX, estão se concretizando. Com a falta de leitores e de publicações, restrito as livrarias e a um público elitista, os quadrinhos nacionais experimentam seus últimos suspiros. Não devem demorar muito mais, já que a maior parte do que é publicado tem sido fruto de incentivos públicos.
Mas, voltando ao QI, esta edição traz artigos de Edgar Indalécio Smaniotto, Marcelo Marat, do já citado Worney e do próprio editor, além das seções fixas "Fórum", com cartas dos leitores, o catálogo de publicações do bimestre e mais quatro páginas da hermética série "Fazenda de robôs", de Guimarães, que há algum tempo não tem mais nada de fazenda nem de robôs, mas na falta de um nome melhor, continuo chamando assim.
A sensação que tenho ao receber e ler as edições do QI é boa, mas está cada vez mais carregada de um desagradável travo de nostalgia, lembranças de um tempo em que as coisas pareciam não estar tão irremediavelmente perdidas, embora as sementes do destino fatal que hoje observamos já estivessem enraizadas.
Edgard Guimarães não é de desistir fácil. Neste momento, o seu fanzine já é um sobrevivente. Mas quando iniciativas como as citadas acima mostram que chegaram ao limite, temo que o QI não dure muito mais.
Gostaria de dizer que vale a pena aproveitar enquanto ele ainda dura, mas o QI se parece cada vez mais com um daqueles monumentos em homenagem a um personagem que ninguém mais se lembra, e que virou apenas um marco perdido no meio de uma velha praça mal cuidada, a qual ninguém mais dá atenção.
O QI só é vendido em forma real e por assinatura. Mais informações com o editor, pelo email edgard@ita.br.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Encurralado na estante


Há algumas semanas, comentei aqui a ótima coletânea O incrível homem que encolheu, do escritor americano Richard Matheson, publicada em 2010 pela Novo Século. Entre os contos publicados, estava o conhecido "Encurralado", texto que inspirou a filmagem em 1971 do longa metragem Duel, que foi o primeiro trabalho de Steven Spielberg no cinema, um dos filmes de terror mais bem resolvidos que se pode assistir.
Pois agora está disponível para download um detalhado modelo do caminhão do psicopata que tentou, de todas as formas, dar um fim na vida do pacato motorista interpretado na tela por Dennis Weaver. E o caminhão mete medo até em seu formato em escala 1:50.
O arquivo tem aproximadamente 10 Mb, e pode ser encontrado no saite Paperoom, junto com outros modelos de caminhões e ônibus bem bacanas. É só imprimir e montar.

domingo, 5 de junho de 2011

Jonah Hex 4

Mais uma edição do nosso pistoleiro favorito chegou às bancas em maio. Jonah Hex: Apenas os bons morrem jovens é o quarto encadernado da coleção, reunindo as edições 19 a 24 do original americano. El Diablo e Bat Lash voltam a dar o ar de suas graças nas histórias do desfigurado caçador de recompensas, que têm os roteiros assinados por Justin Gray e Jimmy Palmiotti, desenhados por David Michael Beck, Phil Noto e Jordi Bernet. Só o trabalho deste último justifica plenamente a aquisição do exemplar, que custa a módica quantia de R$14,90, uma bagatela se considerarmos que a edição tem 148 páginas em cores.
Depois de Texone e Mágico Vento, Jonah Hex é sem dúvida a melhor série de quadrinhos em publicação no país.