sábado, 27 de maio de 2017

O espírito da ficção científica

O espírito da ficção científica (El espíritu de la ciencia ficción), Roberto Bolaño. Tradução de Eduardo Brandão. 184 páginas, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2017.

Nascido no Chile em 1953, Roberto Bolaño teve uma vida movimentada até sua morte, em 2003, vítima de problemas renais. De estudante nerd, o que não era nada bom naqueles tempos, Bolaño tornou-se um militante socialista, chegou a ser preso durante o golpe de Pinochet, mudou-se para o México, depois para Espanha, e construiu uma sólida carreira literária, sendo reconhecido como um dos principais autores de sua geração.
Em espírito da ficção científica, pequeno livro póstumo, fica patente seu apreço pela literatura especulativa. O autor aproveita passagens da própria vida - embora não seja uma autobiografia - para construir um retrato da juventude mexicana nos anos 1970, dividindo-se em dois personagens: Reno, candidato a poeta que investiga uma inexplicável explosão de lançamentos de fanzines, e Jan, um rapaz recluso, leitor voraz de ficção científica, que passa seus dias escrevendo cartas a seus autores favoritos.
Enquanto garimpam por suas vidas, Reno e Jan, se envolvem com diversas personagens da sociedade underground mexicana: ativistas, poetas e malucos de forma geral, acadêmicos obscuros, traficantes, cafetões e garotos de programa, tudo no mais absoluto e crível nonsense que categorizou a adolescência nos anos 1970.
O romance é formado por uma série de plots paralelos, alguns relacionamento interdependentes, outros nem tanto. Apesar de manter uma certa linearidade, os episódios têm uma amarração frouxa, como se fosse uma coletânea de contos com os mesmos personagens. Numa delas, um autor não identificado (que pode tanto ser Remo quanto Jan) participa de uma cerimônia em que é homenageado com algum tipo de prêmio. Dentro dessa narrativa, o autor conta outra história a alguém que o entrevista, que seria o enredo de seu romance premiado, sobre uma guerra que alcança uma inusitada faculdade de agronomia especializada no cultivo de batatas. Essas duas narrativas são entremeadas pelos depoimentos de Remo em suas andanças pela cidade do México em busca de poetas perdidos, e das cartas que Jan escreveu. Os destinatários delas são nomes conhecidos dos fã de ficção científica: Forrest J. Ackerman, Robert Silverberg, Fritz Leiber, Ursula Le Guin (que mereceu duas cartas), Philip Jose Farmer, Alice Sheldon e James Tiptree Jr (que são a mesma pessoa, e Bolaño sabia disso muito bem). Nenhuma das cartas fala de ficção científica, são confissões e pedidos, geralmente políticos, que, em sua inocência, Jan encaminha aqueles que ele admira e acha que poderiam fazer alguma diferença. De certa forma, é esse o foco que mais justifica o título do livro, não pelos autores em si, pois seus nomes são a única contribuição clara do gênero ao romance, mas e espírito do fã, que os venera ao ponto de simular um diálogo pessoal com cada um deles.
Também muito curioso é a obsessão de Jan pelos seus livros que, em certo momento, assumem uma proporção tão predominante no pequeno apartamento que divide com Remo que são obrigados a usar a biblioteca de forma um tanto mais racional: os volumes viram uma mesa de refeições, para desespero dos puristas.
O espírito da ficção científica é um livro pequeno, que se lê com prazer, mas que não tem uma conclusão. O capítulo final, um relato de Remo sobre suas aventuras eróticas nas saunas da cidade do México, demonstra bem a lapidação que o autor deu ao romance. Nem mesmo as histórias dentro das histórias têm finais satisfatórios. Não que isso faça falta: muitos livros realmente ficariam melhores caso seus autores tivessem a sensibilidade de eliminar os últimos capítulos. Dessa forma, O espírito da ficção científica é um livro que abre diálogos, propõe ideias e registra uma época.  E isso é muito mais que muitas trilogias com milhares de páginas jamais conseguiram fazer.

Anacrônicos

Um dia, sem maiores explicações, a sua mãe morta há anos ressurge na cozinha, repetindo continuamente uma ação do seu passado. Ela não interage com você; apenas revive a cena, como se fosse um filme antigo em realidade expandida. Ela pode ser tocada, mas aparentemente não sente o seu toque. A textura é estranha, borrachuda. Não pode ser ferida e não muda uma vírgula no roteiro. No começo, é emocionante mas, com o passar do tempo, torna-se dolorosamente insuportável. Outras pessoas começam a experimentar situações similares, com seus antepassados retornando da morte para interpretar repetidamente antigos papéis. Tudo se complica quando outros momentos dessa pantomima macabra começam a se sobrepor, com diversas cópias dos duplos ressurretos entrecruzando-se no espaço. E fica ainda pior quando mais personagens materializam-se do passado, numa cacofonia enlouquecedora. E quando ressurgirem personagens famosos, como Hitler e Jesus Cristo, onde o mundo irá parar?
Esta é a história que o escritor Luiz Bras oferece aos leitores no ebook Anacrônicos, um conto de ficção fantástica de 30 páginas, ao estilo New Weird, em que o autor retoma o tema da solidão, explorado em profundidade no romance Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012). Mas aqui a situação se inverte: ao invés do isolamento físico, a solidão emerge da multidão de pessoas alheias que impedem a interação social e emocional dos indivíduos. Também a questão dos personagens famosos ressuscitados dialoga com outras obras da ficção especulativa, como a série Riverworld, de Philip Jose Farmer, uma influência de peso que revela a possibilidade de uma exploração mais profunda no tema, que não foi o objetivo de Bras nesta obra.
Luis Bras é escritor de ficção fantástica, nascido na cidade imaginária de Cobra Norato, mas na verdade é uma persona do premiado escritor Nelson de Oliveira, que experimenta aqui os préstimos da edição digital através da plataforma de autopublicação da Amazon. A produção editorial é gráfica é do próprio autor, que também fez sua revisão e encomendou a Teo Adorno, a persona ilustradora de Oliveira, o ótimo desenho da capa. A produção interna também é minimalista, com pequenos toques coloridos nas aberturas dos capítulos. Tudo muito limpo e elegante.
A edição está disponível no saite da livraria Amazon, aqui.

Juvenatrix 185

Está disponível a edição de maio do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti.
A edição tem 13 páginas e traz um conto do editor e resenhas aos filmes Demônio, o rei das trevas (Prime evil, 1988); Espíritos do demônio (Evil spirits, 1990), A hora do terror (Witchcraft 7: Judgement hour, 1995), A maldição da casa do diabo (The fall of the house of Usher, 1979)
A maldição de El Diablo (The evil below, 1989), A maldição dos espíritos (Spirits, 1990), A marca do vampiro (Pale blood, 1990), A morada do terror (Grandmother´s house, 1988) e  A morte veste vermelho (I´m dangerous tonight, 1990). Divulgação de fanzines, livros, filmes e bandas independentes de rock extremo complementam a edição. A capa traz uma ilustração de Angelo Junior.
Para obter uma cópia, basta solicitar pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Um estudo da fc&f brasileira em 2016

Em 2016, voltei às carteiras escolares, mais exatamente ao curso de Filosofia na Universidade Federal do ABC, Campus São Bernardo do Campo. Nos primeiros quadrimestres do curso, a grade curricular é básica para todos os estudantes de Bacharelado em Ciências e Humanidades, que é o caso de Filosofia. Dessa forma tenho disciplinas de várias áreas de Humanas e Tecnologia.
Neste quadrimestre, cursei a disciplina de Bases Computacionais da Ciência, com o professor Cesar Giacomini Penteado que, entre outras coisas, solicitou que a turma se organizasse em grupos e que fizessem trabalhos de estatística com as ferramentas tratadas no curso. Junto comigo ficaram no grupo os colegas Amanda Soares de Melo, Tiago Rocha do Nascimento e Vinicius Brambilla Alakaki.
Como o tema do trabalho era livre, e com uma pequena influência minha, o grupo aceitou trabalhar sobre os lançamentos de ficção fantástica brasileira em 2016, cuja planilha eu já tinha pronta (ou quase) para publicação.
A relação completa dos lançamentos ainda não foi publicada – voltarei ao assunto no momento oportuno –, mas o resultado do trabalho pode ser lido aqui. O texto não é longo, mas  meus colegas fizeram intervenções analíticas muito interessantes, vale a pena conferir.
A UFABC, por ser caráter de pesquisa científica, parece dar boa abertura para a ficção fantástica, e a fc em particular. Outras ações podem vir no futuro.

Fanzine Ilustrado

Nova proposta de André Carim – editor do fanzine Múltiplo. A cada edição, o Fanzine Ilustrado destaca um importante ilustrador brasileiro.
A publicação tem pouquíssimo texto, um mínimo só para contextualizar o artista. O foco são as ilustrações, exibidas no estado da arte, com muito colorido.
A primeira edição, lançada em março, tem 92 páginas ilustrações e pinups do premiado caricaturista carioca Nei Lima.
O segundo número, de abril, tem 81 páginas em homenagem ao quadrinhista Julio Shimamoto, e podemos apreciar com prazer o trabalho do mestre como artista plástico, fora do modelo dos quadrinhos com que estamos habituados.
As edições podem ser baixadas nos links respectivos, e versões impressas estão disponíveis no saite Clube de Autores, aqui.

Conexão Literatura 23

Está circulando o número 23 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 54 páginas e destaca o trabalho de Carolina de Jesus (1914-1977) uma das primeiras escritoras brasileiras negras, autora do clássico Quarto de despejo. A publicação traz contos de Mírian Santiago, Helder Félix de Souza Júnior e Amanda Leonardi, crônicas de Rafael Botter e Misa ferreira, resenha de Eudes Cruz ao livro Diário de uma escrava, de Rô Mierling, e entrevistas com Carla Krainer (Júlia), Fathyma Jaguanharo (Cárcere de sonhos), Morais de Carvalho (Todos iguais, poucos diferentes) e Sofia Silva (Sorrisos quebrados).
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

Múltiplo 6 e 7

Estão disponíveis duas novas edições do fanzine virtual de quadrinhos Múltiplo, editado por André Carim.
O número 6, de abril de 2017, tem 104 páginas e destaca o trabalho do fanzineiro e quadrinhista Juvêncio Veloso como o entrevistado do mês, e também entrevista o quadrinhista e acadêmico Gazy Andraus. Nos quadrinhos, trabalhos de Cayman Moreira, Salatheil Anacleto, Calazans, Edgard Guimarães, Edgar Franco, Orlando, Bira, Wanderley e Rafael Portela. A capa traz uma ilustração de Cayman Moreira.
O número 7, de maio, também tem 104 páginas e evidencia os trabalhos do astro dos quadrinhos Mike Deodato e do quadrinhista fanzineiro Carlos Henry. Nos quadrinhos, Airton Marcelino, André Carim, Carlos Henry, Glauco Torres, Flávio Calazans, Isaac Tiago, Edgard Guimarães e Márcio Sennes, além de um artigo sobre o quadrinhista Fernando Marques. A capa é assinada pelo mestre Julio Shimamoto. As edições são completadas com ilustrações avulsas, artigos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores.
As publicações podem ser baixadas gratuitamente nos links correspondentes. Edições anteriores também estão disponíveis.